Quem pode ministrar os Sacramentos? Ageu Magalhães

Publicado em: 13 de abril de 2020 Por: Rev. Ageu Magalhães
Com o isolamento social imposto pelo coronavírus algumas igrejas inauguraram a prática de “ceia online”. O procedimento consiste em os membros da igreja providenciarem os elementos da ceia (pão e vinho) e o pastor, via internet, fazer a oração de consagração dos elementos, à distância. Os crentes se servem a si próprios.

Muitos artigos contrários a esta prática foram escritos. Todavia, eu gostaria de abordar um ponto importante que geralmente é questionado nessa discussão: Quem pode ministrar sacramentos? Só o pastor ou qualquer membro da igreja? Veja os pontos abaixo:

1º Administração de Sacramentos é algo exclusivo de oficiais

Jesus é o Rei da Igreja e a administra por meio dos oficiais, que devem seguir a Palavra.

No Antigo Testamento os ofícios eram de Profeta, Sacerdote e Rei. Cada ofício tinha sua função e limites: O profeta era a boca de Deus. Anunciava a mensagem do Senhor. O Sacerdote era o intermediário entre Deus os homens. O Rei era quem regia o povo, aplicando as leis do Senhor. Eram limitados por seus ofícios. De forma que o rei não podia oferecer sacrifícios, nem o profeta podia requerer o trono e muito menos o sacerdote podia querer falar em nome do Senhor. Cada ofício tinha funções e limitações.

No Novo Testamento os ofícios temporários eram o de Apóstolo e Evangelista (At 21.8, Ef 4.11). Os ofícios permanentes (que estão em vigor hoje) eram de Presbítero e Diácono. 

Nós não encontramos no Novo Testamento pessoas que não sejam oficiais, isto é, que não tenham ofício, ministrando sacramentos. Veja os exemplos: João Batista (Profeta), Jesus (Profeta, Sacerdote e Rei), Felipe (Evangelista), Paulo (Apóstolo). A única exceção foi Ananias, ordenado imediatamente por Deus. No geral, não há não oficiais ministrando.

É por isso que, nas igrejas reformadas, “leigos” não administram sacramentos. Não há base bíblica para isso. Apenas oficiais estão autorizados pela Palavra a fazê-lo. “Ninguém, pois, toma esta honra para si mesmo, senão quando chamado por Deus, como aconteceu com Arão.” (Hb 5.4)

2º O Ensino deve acompanhar o Sacramento

As últimas palavras de Jesus, no Evangelho de Mateus, foram:

“Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra. Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado. E eis que estou convosco todos os dias até à consumação do século.” (Mt 28.18-20)

A ordem do batismo tem, antes e depois, o elemento do ensino. Antes temos “fazei discípulos” e depois “ensinando-os a guardar todas as coisas”. Isso mostra que o batismo segue junto com o ensino da Palavra. Os apóstolos receberam primeiro este encargo de ensinar e batizar e, depois deles, a Igreja.

Tratando sobre isso, João Calvino escreveu:

“Também diz respeito a este assunto saber que não é bom que uma pessoa particular usurpe para si a administração, pois ela é parte do ministério eclesiástico, tanto quanto a dispensação da Ceia. Pois Cristo não ordenou nem às mulheres nem a quaisquer homens que batizassem, mas deu este mandato àqueles que ele havia constituído apóstolos. E quando mandou que os discípulos fizessem, ao administrar a ceia, o que viram que ele havia feito, quando cumpriu a função de um legítimo administrador, sem dúvida quis que eles imitassem nisso seu exemplo (…) Pois as palavras de Cristo são claras: ‘ide, ensinai a todas as nações e batizai-as’” (Mt 28.19). Uma vez que ele constitui pregadores do Evangelho os mesmos ministros do batismo, e que ninguém na Igreja, segundo o Apóstolo, deve usurpar esta honra, senão aquele que for chamado, como Aarão (Hb 5.4), qualquer um que batize sem vocação legítima apodera-se do ofício de outro. Paulo clama claramente que tudo o que se empreende com a consciência dividida, ainda que em coisa sem importância, como a comida e a bebida, é pecado (Rm 14.23). Portanto, peca-se muito mais gravemente quando uma mulher batiza, uma vez que a regra estabelecida por Cristo é claramente violada; pois bem sabemos que é pecado separar as coisas que Deus juntou.” (Institutas, 4.15.20,22)

Na mesma linha escreveu Herman Bavinck: 

“Alguns como Grotius, Salmasius e Episcopius (et al.), afirmam que, se o sacerdote ou ministro regular estiver ausente, a Ceia do Senhor também pode ser ministrada por um membro comum da igreja. No entanto, essa opinião não é bem fundamentada. Em Mateus 28.19, a ministração do batismo juntamente com a da Palavra foi confiada aos apóstolos. Eles, juntamente com os ministros, são os distribuidores dos mistérios de Deus, os proclamadores dos “segredos” que Deus revelou no evangelho de Cristo (1Co 4.1), despenseiros de Deus cuja tarefa é distribuir sua graça (1Co 9.17; Tt 1.7-9).” (Dogmática Reformada, ECC, 2012, Vol. 4, p. 569)

Mais recentemente, Chad Van Dixhoorn, no seu Guia de Estudos da Confissão de Fé, escreveu:

“Certamente, ao refletir sobre as pessoas que devem administrar os sacramentos, é importante perceber que Jesus comissionou seus discípulos escolhidos para ir por todo o mundo com a Palavra e os sacramentos – foi um encargo deliberadamente dado aos mestres da Igreja (Mt 28.19).” (p. 369)

Em suma, o mandamento de ensinar e batizar foi dado aos apóstolos, os primeiros pastores da Igreja. Estes ficaram responsáveis por seguir esta comissão com fidelidade.  Eles receberam este encargo, bem como toda a instrução de Jesus. Quando Paulo corrigiu os coríntios quanto à ceia, ele disse: “Porque eu recebi do Senhor o que também vos entreguei…” (1Co 11.23). Vemos aqui a fidelidade de Paulo em passar exatamente o que recebeu: sem acréscimos, nem diminuições.

O sacramento (mysterion) anda junto com a Palavra porque, para administrá-lo, é necessário o entendimento da Palavra. Qual é o significado, por exemplo, de expressões como “lavar regenerador” (Tt 3.5), “isto é o meu corpo” (1Co 11.24) ou “discernir o corpo” (1Co 11.29). É necessário o afadigar-se na Palavra (1Tm 5.17) para entender e explicar estas profundas expressões bíblicas.

3º Os ministros da Palavra são também ministros dos Sacramentos

A palavra “sacramento” vem do grego mysterion, algo encoberto que deve ser revelado. Agostinho definiu sacramento como “um sinal visível de uma graça invisível”. A água, o pão e o vinho não tem palavras, mas falam eloquentemente, têm profundo significado. Sacramento é linguagem não verbal, e Deus utilizou, muitas vezes, linguagem não verbal para expressar sua verdade.

O sacramento não pode ser divorciado da Palavra. A mensagem verbal aperfeiçoa e completa a mensagem não verbal. Em 1 Coríntios 4.1 o apóstolo Paulo escreve que “Assim, pois, importa que os homens nos considerem como ministros de Cristo e despenseiros dos mistérios de Deus.”

Comentando esta passagem, Bavinck escreveu:

“Com referência a esses mistérios, deve-se, indubitavelmente, antes de tudo, pensar na palavra do evangelho. Entretanto, o sacramento segue a Palavra e está sempre conectado a ela. Em Jerusalém, os apóstolos se dedicaram ao ministério da oração e da Palavra (At 6.4). No partir do pão (At 20.7,11), Paulo falou. Dar graças na Ceia do Senhor era uma parte do ministério da Palavra e, portanto, era algo atribuído ao ministro, embora, como o partir do pão em 1 Coríntios 10.16, seja representado como um ato da congregação. De acordo com o Didaqué, portanto, a ação de graças (eucharistein) é a tarefa própria dos profetas; de acordo com Inácio, é a tarefa do bispo; de acordo com Justino, é a tarefa que pertence ao ministro que preside (proestos), enquanto, a esse respeito, os diáconos serviam e davam o pão e o vinho aos comungantes. Essa ligação exclusiva da ministração da Ceia do Senhor com a da Palavra prova que o ministro age em nome de Cristo e funciona como o despenseiro e distribuidor de seus mistérios.” (Dogmática Reformada, ECC, 2012, Vol. 4, p. 569).

Na mesma linha de pensamento, Calvino afirma:

“Paulo enaltece o evangelho ao denominá-lo de os mistérios de Deus. Além do mais, visto que os sacramentos se acham conectados a esses mistérios como suplementos, segue-se que aqueles que se acham responsabilizados a ocupar-se da Palavra, também estão autorizados a ministrá-los.” (1 Coríntios, Parácletos, 1996, p. 125)

Chad Van Dixhoorn também entende assim:

“Se os sacramentos são adequadamente denominados ‘mistérios’ do Evangelho, pode ser que o Novo Testamento ensine que os sacramentos devem ser ministrados pelos ministros, pois o apóstolo Paulo diz: “assim, pois, importa que os homens nos considerem como ministros de Cristo e despenseiros dos mistérios de Deus (1Co 4.1).” (p. 369).

4º O estabelecido nas Confissões de Fé Reformadas

O entendimento das verdades bíblicas expostas acima consolidou-se no que temos estabelecido nas confissões da Igreja. Veja o que dizem estas confissões:

Confissão Belga (1561) 

“Cremos que esta verdadeira igreja deve ser governada conforme a ordem espiritual, que nosso Senhor nos ensinou na sua Palavra. Deve haver ministros ou pastores para pregarem a Palavra de Deus e administrarem os sacramentos; deve haver também presbíteros e diáconos para formarem, com os pastores, o conselho da igreja. Assim, eles devem manter a verdadeira religião e fazer com que a verdadeira doutrina seja propagada, que os transgressores sejam castigados e contidos, de forma espiritual, e que os pobres e os aflitos recebam ajuda e consolação, conforme necessitam.” (Artigo 30)

Os ministros, por sua parte, nos administram somente o sacramento, que é visível, mas nosso Senhor nos concede o que o sacramento significa, a saber: os dons invisíveis da graça. Ele lava nossa alma, purificando-a e limpando-a de todas as impurezas e iniquidades. Ele renova nosso coração, enchendo-o de toda a consolação, e nos dá a verdadeira certeza de sua bondade paternal. Ele nos reveste do novo homem, despindo-nos do velho com todas as suas obras” (Artigo 34).

Catecismo de Heidelberg (1563)

“… 
Cristo me mandou, assim como a todos os fiéis, comer do pão partido e beber do cálice, em sua memória. E Ele acrescentou esta promessa: Primeiro, que, por mim, seu corpo foi sacrificado na cruz e que, por mim, seu sangue foi derramado, tão certo como vejo com meus olhos que o pão do Senhor é partido para mim e o cálice me é dado. Segundo, que Ele mesmo alimenta e sacia minha alma para a vida eterna com seu corpo crucificado e seu sangue derramado, tão certo como recebo da mão do ministro e tomo com minha boca o pão e o cálice do Senhor. Eles são sinais seguros do corpo e do sangue de Cristo”.

Segunda Confissão Helvética (1566)

“… Pois o próprio Senhor nosso não nomeou nenhum sacerdote na Igreja do Novo Testamento, que, tendo recebido autoridade do sufragâneo, ofereçam sacrifício diariamente, isto é, a própria carne e sangue do Senhor, pelos vivos e mortos, mas ministros que ensinem e administrem os sacramentos.” (18)

“Os ministros, despenseiros dos mistérios de Deus. Contudo, para explicar mais completamente o ministério, o apóstolo acrescenta que os ministros da Igreja são ecônomos ou despenseiros dos mistérios de Deus. Ora, em muitas passagens, especialmente em Efésios, cap. 3, São Paulo chamou “mistérios de Deus” ao Evangelho de Cristo. E os escritores antigos também chamaram “mistérios” aos sacramentos de Cristo. Assim, é para isto que os ministros da Igreja são vocacionados – para pregarem o Evangelho de Cristo aos fiéis e para administrarem os sacramentos.” (18) 


“Os deveres do ministro. São vários os deveres dos ministros, no entanto, em geral se restringem a dois, nos quais todos os outros estão incluídos: o ensino evangélico de Cristo e a legítima administração dos sacramentos (…) Mas, além de tudo isso, é seu dever administrar os sacramentos, recomendar o uso justo deles e, pela sã doutrina, preparar todos para recebê-los; conservar também os fiéis numa santa unidade; e impedir os cismas, enfim catequizar os ignorantes, recomendar à Igreja as necessidades dos pobres, visitar, instruir e conservar no caminho da vida os enfermos e os afligidos por várias tentações…” (18)

“Ensinamos que o batismo não deve ser administrado na Igreja por mulheres ou por parteiras. São Paulo vetou à mulher os ofícios eclesiásticos. E o batismo pertence aos ofícios eclesiásticos.” (20)

Cânones de Dort (1619)


“… Por esta razão os apóstolos, e os mestres que os sucederam, piedosamente instruíram o povo acerca da graça de Deus, para sua glória e para humilhação de toda soberba do homem. Ao mesmo tempo eles não descuidaram de manter o povo, pelas santas admoestações do Evangelho, sob a ministração da Palavra, dos sacramentos e da disciplina.” (4.18)

Confissão de Fé de Westminster (1646)

“Há apenas dois sacramentos ordenados por Cristo, nosso Senhor, no Evangelho: O Batismo e a Ceia do Senhor. Nenhum dos quais pode ser administrado senão por um ministro da Palavra, legalmente ordenado.” (27.4)

O elemento exterior, usado neste sacramento, é água, com a qual a pessoa é batizada em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, por um ministro do Evangelho, legalmente ordenado.” (28.2)

“Nesta ordenança, o Senhor Jesus constituiu os seus ministros para declarar ao povo a sua palavra de instituição, orar, abençoar os elementos, pão e vinho, e assim separá-los do uso comum para um uso sagrado; para tomar e partir o pão, tomar o cálice, dele participando também, e dar ambos os elementos aos comungantes, e tão-somente aos que se acharem presentes na congregação.” (29.3)

Catecismo Maior de Westminster (1648)

“Cristo ordenou que os ministros da Palavra, na administração deste sacramento, separassem o pão e o vinho do uso comum pela palavra da instituição, ações de graça e oração; que tomassem e partissem o pão e dessem, tanto este como o vinho, aos comungantes, os quais, pela mesma instituição, devem tomar e comer o pão e beber o vinho, em grata recordação de que o corpo de Cristo foi partido e dado, e o seu sangue derramado por eles.” (perg. 169)

Os sacramentos do Batismo e da Ceia do Senhor concordam em ser Deus o autor de ambos; em ser Cristo e os seus benefícios a parte espiritual de ambos; em ambos serem selos do mesmo pacto, em não deverem ser administrados senão pelos ministros do Evangelho, e em deverem ser continuados na Igreja de Cristo até a sua segunda vinda.” (perg. 176)


Concluindo, temos 4 fortes razões para não participarmos de uma “ceia doméstica” ou “online”, administrada por quem não é pastor. Primeiro, a constatação de que, no Novo Testamento, os sacramentos são sempre administrados por oficiais. Segundo, a averiguação de que o sacramento sempre vem acompanhado do ensino e explicado por ele. Terceiro, a confirmação de que os ministros de Cristo são os despenseiros dos mistérios de Deus, e nestes estão também os sacramentos. E, quarto, o reconhecimento das igrejas de que este é um ensino bíblico, fazendo parte, portanto, das principais confissões de fé reformadas. 

A percepção destas verdades nos guardará do erro. E errar na participação do sacramento é pecado grave. Os coríntios foram disciplinados por causa disso: “Eis a razão por que há entre vós muitos fracos e doentes e não poucos que dormem.” (1Co 11.30). Que Deus nos livre de profanarmos a mesa do Senhor.

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Unknown
Unknown
2 anos atrás

Muito grato por sua exposição bíblica e doutrinária. Deus muito lhe abençoe.

Unknown
Unknown
2 anos atrás

Parabéns Rev. Ageu. Caminho na mesma direção do irmão. Que o Senhor aquietar os corações dos apressados.

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