Por que, na minha opinião, o “culto infantil” é um equívoco

1. Porque não há base bíblica para retirada das crianças para um culto em separado. E, considerando o Princípio Regulador do Culto, a falta de determinação sobre esta prática já deveria ser motivo para não criarmos um princípio novo. Se não há base bíblica, não cabe no culto.
2. Porque nas Escrituras as crianças recebem a Palavra de Deus junto aos pais. Senão vejamos:
– “Tocai a trombeta em Sião, promulgai um santo jejum, proclamai uma assembleia solene. Congregai o povo, santificai a congregação, ajuntai os anciãos, reuni os filhinhos, e os que mamam, saia o noivo da sua recâmara, e a noiva, do seu aposento.” Joel 2.15-16
– “Então, Moisés e Arão foram conduzidos à presença de Faraó; e este lhes disse: Ide, servi ao Senhor vosso Deus; porém quais são os que hão de ir? Respondeu-lhe Moisés: Havemos de ir com os nossos jovens, e com os nossos velhos, e com os filhos, e com as filhas, e com os nossos rebanhos, e com os nossos gados; havemos de ir, porque temos de celebrar festa ao Senhor.” Êxodo 10.8-9.
– “Quando o Senhor te houver introduzido na terra dos cananeus, e dos heteus, e dos amorreus, e dos heveus, e dos jebuseus, a qual jurou a teus pais te dar, terra que mana leite e mel, guardarás este rito neste mês. Sete dias comerás pães asmos; e, ao sétimo dia, haverá solenidade ao Senhor. Sete dias se comerão pães asmos, e o levedado não se encontrará contigo, nem ainda fermento será encontrado em todo o teu território. Naquele mesmo dia, contarás a teu filho, dizendo: É isto pelo que o Senhor me fez, quando saí do Egito.” Êxodo 13.5-8
– “Todo o Judá estava em pé diante do Senhor, como também suas crianças, as suas mulheres, e os seus filhos.” 2 Crônicas 20.13
– “Palavra nenhuma houve, de tudo o que Moisés ordenara, que Josué não lesse para toda a congregação de Israel, e para as mulheres, e os meninos, e os estrangeiros, que andavam no meio deles.” Josué 8.35
O próximo argumento, que diz respeito à linguagem compreensível às crianças, não vou enumerá-lo porque é mais fraco. Na minha visão, os dois argumentos acima são conclusivos. Todavia, para dar algumas sugestões a pregadores, eu diria o seguinte:
1. A criança com menos de dois ou três anos de idade compreenderá muito pouco, tanto no culto normal quanto no culto infantil.
2. Crianças maiores que isso já entendem muita coisa. Certa vez, em um culto solene, domingo à noite, minha filha, com 3 anos de idade, virou-se para minha esposa e perguntou: – Mãe, como é o nome desse homem que queria matar Jesus? – É Herodes, minha filha. – Mas o Faraó também não quis matar? – Não. O Faraó quis matar Moisés… Em outra ocasião, meu filho, com 4 anos, um dia depois do culto, me disse: “Pai, eu já sabia daquela história do sangue nas portas que você contou ontem”. Ele prestou atenção nas palavras ditas na Ceia. Dois anos depois, meu filho, agora com 6 anos, depois do culto me disse: “Pai eu ouvi a história que o Marcos contou. Primeiro foi da ovelha perdida, depois foi da moeda e depois foi do filho pródigo.” O curioso é que isso aconteceu em uma leitura responsiva no culto. Via de regra, subestimamos a atenção e a compreensão das crianças.
3. Pregadores devem se acostumar a usar linguagem simples no púlpito. Devem pregar em um nível que até as crianças entendam. E, se elas entenderem, saiba que a maioria da congregação entenderá.
4. Nossos pais puritanos eram especialistas em aplicação. Aplicavam a todos os grupos presentes no culto. Se há crianças no momento do sermão, aplique o sermão a elas também.
5. Pais cristãos devem se acostumar a conversar sobre o sermão que foi pregado no domingo. Essa prática é boa para avaliar se os filhos entenderam o sermão, reforçar o ensino e esclarecer eventuais dúvidas.
Termino citando Van Groningen: “Quando Deus fez um pacto com o Seu povo, eles todos tiveram que estar presentes, até mesmo as crianças de peito; e não havia um culto especial para as crianças lá (estou pisando em terreno perigoso?) Talvez possamos falar um pouco sobre isso. No Antigo Testamento, as crianças tinham que ser trazidas ao templo já no oitavo dia para circuncisão, e na idade de 12 anos já deviam ser consideradas adultas, no que diz respeito ao culto; as crianças eram os futuros servos do rei. Deixem-me lembrar também que as crianças deviam participar da páscoa, e elas tinham inclusive o privilégio de perguntar: ‘O que significa isso’? E os pais tinham que responder. Isso certamente foi na época em que o culto estava centralizado na família, mas o mesmo é verdadeiro quando o culto foi transferido e centralizado no templo. Eu sou pai de oito filhos, e eu e minha esposa temos experimentado o que é educar, em termos de culto, a essas crianças. Eu sei o que estou falando; nós somos avós de vinte e nove meninos e meninas, então podemos falar a partir de uma situação concreta. Estou pronto para falar sobre isso. Eu acredito em culto familiar, em casa e na Igreja.’ (Gerard Van Groningen, As Influências do Culto do Antigo Testamento na Liturgia.)

Pós-escrito: Aos presbiterianos, a prova de que o “culto infantil” não cabe em nosso sistema é a total ausência de qualquer menção a ele nos Princípios de Liturgia da IPB, que tratam e regulam o culto em nossas igrejas e a seguinte alínea no Artigo 2º do Modelo de Regimento para a Junta Diaconal: ” l) evitar de modo absoluto que haja reuniões em outras salas ou palestras entre membros da igreja ou simples assistentes, dentro do Templo ou nos pátios, durante as horas de culto.”

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